O cinema nacional enfrenta um problema que poucos têm coragem de admitir. Entre cineastas, roteiristas e entusiastas da indústria, o discurso é quase sempre o mesmo: “Falta dinheiro”, “Precisamos de mais cotas de tela”, “O público não valoriza o cinema brasileiro”.
A culpa pelo fracasso do cinema nacional, segundo essa narrativa, recai sempre sobre fatores externos – seja o governo, o público ou o domínio de Hollywood nas salas de exibição. Embora essas reclamações não sejam totalmente infundadas, há uma ausência gritante de autocrítica que encobre um problema maior: e se grande parte da culpa pelo estado do cinema nacional estivesse, na verdade, dentro do próprio cinema?
O problema que ninguém quer admitir
A verdade é que o cinema brasileiro, em grande parte, perdeu a conexão com o público. Muitos filmes são feitos para cumprir requisitos de editais governamentais, sem qualquer preocupação em atrair quem realmente paga para assisti-los.
Diretores e cineastas frequentemente se concentram tanto em suas visões artísticas e pessoais – muitas vezes com um tom elitista ou excessivamente político – que esquecem que o cinema também é um produto comercial. O público não quer pagar um ingresso caro para assistir a uma aula ou ser confrontado com as dificuldades do mundo real. Ele busca se divertir, se emocionar e, muitas vezes, escapar do peso de um cotidiano já exaustivo.
O problema não é apenas dos cineastas, é um reflexo direto de como o setor audiovisual brasileiro foi estruturado ao longo das décadas. Financiado quase exclusivamente pelo governo, através de leis de incentivo como a Lei do Audiovisual e o Fundo Setorial, o sistema, apesar de bem-intencionado, apresenta falhas que comprometem sua eficácia. O grande obstáculo está na forma como esses recursos são aplicados, criando um modelo prejudicial que desestimula a conexão com o público.
Hoje, o cinema nacional opera dentro de um sistema onde os filmes praticamente já nascem pagos. Diretores captam recursos governamentais, pagam suas equipes e concluem suas produções com o orçamento garantido desde o início. Financeiramente, o filme já está quitado antes mesmo de chegar ao público, o que elimina qualquer pressão para que ele gere lucro, seja nas bilheterias ou em vendas.
É claro que o diretor deseja que sua obra seja vista, mas não há a necessidade real de fazê-la rentável, já que todos os custos foram cobertos. Essa lógica ignora o cinema como um negócio e cria um ambiente onde a viabilidade comercial não é uma prioridade.
O resultado é um mercado que, ao longo dos anos, se afastou da audiência. Essa desconexão tem cultivado, de forma preocupante, o preconceito que o público hoje nutre contra o cinema brasileiro, muitas vezes visto como algo distante, elitista ou irrelevante. Não é a falta de recursos que mata o cinema nacional, mas o formato equivocado de aplicação desse dinheiro, que prioriza processos, mas deixa de lado a relação mais importante: a do filme com o público.
Como os filmes não dependem do espectador para gerar lucro, eles são feitos sem considerar os gostos, interesses ou expectativas da audiência. Se o modelo incentivasse a necessidade de retorno financeiro, veríamos produções que priorizassem temas mais relevantes para o grande público, acompanhadas de estratégias robustas de marketing e até mesmo sessões-teste para ajustar o filme com base no feedback real de quem vai assisti-lo.
Além disso, a montagem seria mais dinâmica, as histórias teriam apelo mais amplo e os cineastas fariam de tudo para criar obras capazes de atrair grandes plateias. Esse esforço não significaria abrir mão de qualidade artística, mas sim aliar criatividade à capacidade de engajar, algo que é fundamental para transformar o cinema em uma indústria economicamente sustentável.
Diretores sem visão de negócios
Um dos grandes problemas do cinema brasileiro é a falta de visão empreendedora entre diretores. Muitos cineastas saem das faculdades focados em “arte pela arte”, ignorando que o cinema também é um negócio. O resultado são filmes que falam para nichos pequenos, sem apelo para o público maior, e que acabam desconectados das demandas do mercado.
Embora existam alguns produtores excepcionais no Brasil, eles são raros, e diretores com visão de negócios são ainda mais escassos. Produtores com estratégia fazem perguntas essenciais, como: Quem é o público? Como alcançá-lo? Esse roteiro funciona no mercado? Nos Estados Unidos, produtores desempenham papéis centrais, conectando a criatividade ao lucro. Aqui, me parece que muitos são frequentemente limitados a funções administrativas.
Sem mais profissionais com visão empreendedora e cineastas dispostos a enxergar o público como peça-chave, o cinema nacional continuará preso em um ciclo onde a culpa recai no público, e não na falta de planejamento.
A culpa não é do público
Culpar o público pela falta de interesse no cinema nacional é um dos maiores erros da indústria. Frases como “O público não entende arte” ou “Só gosta de blockbusters” são arrogantes e acabam afastando ainda mais as pessoas. A verdade é que o público não é burro; ele apenas não vê valor em filmes que não dialogam com suas expectativas e interesses. O problema não está no público – está na incapacidade da indústria de se comunicar com ele e criar filmes que realmente conectem.
Se analisarmos os dados das maiores bilheterias nacionais, fica claro que existe um público disposto a ir ao cinema quando se sente representado ou engajado. O top 3 de bilheterias nacionais já é um alerta: dois filmes religiosos e uma comédia familiar mostram o que o público brasileiro realmente busca nas telonas.
No topo do ranking está “Nada a Perder” (2018), uma produção religiosa que arrecadou impressionantes R$ 119.169.008, Em segundo lugar, aparece a comédia “Minha Mãe é uma Peça 3” (2019), que alcançou um recorde de R$ 181.958.893. E, em terceiro, outro sucesso religioso, “Os Dez Mandamentos – O Filme” (2016), com R$ 116.710.906.

Esses números provam que o público brasileiro valoriza filmes que se conectam com suas crenças, experiências e realidades. Produções religiosas, por exemplo, têm um apelo enorme, mas muitos cineastas brasileiros ignoram essa oportunidade.
Se estivéssemos falando de Hollywood, o sucesso de “Nada a Perder” e “Os Dez Mandamentos” teria gerado uma onda de novas produções para atender a essa demanda. No Brasil, no entanto, questões políticas e até certo preconceito com o público cristão impedem que esse segmento seja explorado como poderia.
Enquanto os cineastas estiverem presos às suas bolhas e ignorarem os sinais claros do mercado, o cinema nacional continuará desconectado de sua audiência – e o público, consequentemente, continuará olhando para outras opções que falam mais diretamente com ele.
Rafael Thorino é cineasta, produtor e proprietario da Thorin Filmes e da Studio Blum.