O cantor baiano Dupê tem apostado em um termo próprio para definir sua música: o cybercangaço. A ideia surgiu após o artista ganhar projeção nas redes sociais ao misturar forró, arrocha e piseiro com trap, rock e referências da cultura digital.
Natural de Salvador (BA), ele construiu uma trajetória de nove anos até alcançar visibilidade nacional. O ponto de virada veio com vídeos que viralizaram nas redes sociais, onde reinterpretava o forró com batidas e estética associadas ao trap.
Em entrevista ao Metrópoles, Dupê conta que o conceito de cybercangaço parte de uma crítica à forma como o forró e gêneros nordestinos ainda são percebidos por parte do público.
“O cybercangaço é justamente a perspectiva de trazer o forró para o futuro, é a nova geração do forró. É tentar trazer a estética moderna, urbana, futurista pra um gênero que ainda é muito visto como algo antigo, arcaico, muito na visão preconceituosa também, estereotipada do Nordeste, do Nordeste seco, pobre”, explica.
A identidade visual do projeto reflete essa fusão de mundos. O cantor utiliza correntes, balaclavas e acessórios típicos da cultura hip hop enquanto interpreta canções de base regional. Essa estética de rapper aplicada ao contexto do sertão cria um contraste que atrai o público nas redes sociais.
“É o forró e o Nordeste associados à tecnologia, ao novo e não ao velho. É algo muito lembrado como algo antigo, como algo que só se ouve no São João. O cybercangaço também é um convite a nova geração para conhecer clássicos em outro formato”, diz Dupê.
A construção dessa identidade começou a ganhar força quando ele decidiu mudar o próprio caminho artístico. Antes, o foco estava no rap.
“Comecei fazendo rap, sendo MC de batalha, fazendo poesia nos ônibus. Só que aí eu quis inovar, eu quis trazer minha identidade, minha cultura, ser original. Eu estudei sobre, eu li muita literatura nordestina, e trouxe isso pra minha arte”.
A projeção do trabalho de Dupê alcançou nomes de peso da música nacional. Recentemente, ele participou do EP natalino Prazer, Mamãe Noel, de Pabllo Vittar. O artista foi o único convidado do projeto e colaborou na faixa A Ceia.
Ele também passou a abrir shows de Xamã em Salvador e, na sequência, foi contratado pela Bagua Records, mesma gravadora do rapper. Atualmente, Dupê vive no Rio de Janeiro.
Unificação da cultura latina
As ambições do artista ultrapassam as fronteiras do Brasil. O cantor enxerga paralelos entre sua música e movimentos internacionais de sucesso, como o do mexicano Peso Pluma, que frequentemente incorpora em suas canções os corridos tumbados, um subgênero musical que funde a estrutura dos corridos tradicionais do México com elementos do trap e do hip-hop.
A unificação da cultura latina é um dos pilares desse pensamento. O artista observa o avanço da cultura latina no mundo e projeta um espaço ainda maior para a música brasileira.
“Eu acho que o funk já está conquistando espaço, mas o forró também tem potencial de chegar onde o funk está — e até ir mais longe. A música brasileira, como um todo, ainda tem muito espaço pra crescer lá fora, assim como a música latina. No fim, é tudo uma unificação da cultura latina. E o cybercangaço é justamente isso.”