O investigador da Polícia Civil, Mário Wilson Vieira da Silva Gonçalves, foi condenado a dois anos de detenção a ser cumprida em regime aberto, pelo homicídio do policial militar Thiago de Souza Ruiz, morto a tiros em uma conveniência, em 27 de abril de 2023, em Cuiabá. Foi determinada ainda a retirada da tornozeleira eletrônica do réu. O tribunal do júri durou três dias e foi encerrado nesta quinta-feira (14).
Os jurados que formaram a composição do Conselho de Sentença reconheceram que o investigador foi o autor dos disparos que atingiram o policial militar e não absolveram o acusado.
Durante a leitura da sentença pelo juiz Marcos Faleiros da Silva, que presidiu a sessão, foi dito que os jurados reconheceram que o réu agiu de forma negligente ao discutir com a vítima, consumiu bebida alcóolica momentos antes de desarmar a vítima, o que gerou o conflito.
Após a leitura o o promotor de Justiça Vinícius Gahyva Martins interpôs recurso imediatamente. A defesa destacou que vai analisar se deve recorrer ou não da decisão.
Mário Wilson respondeu o processo em liberdade e deve continuar solto.
Defesa de teses
Horas antes da sentença, durante sustentação oral, o promotor de Justiça Vinícius Gahyva Martins, exibiu em telão vídeos do dia dos fatos e enfatizou que tanto réu, quanto a vítima, e outros amigos que estavam na conveniência, não demonstravam comportamento alterado e conversavam tranquilamente juntos.
O membro do Ministério Público (MPMT) também destacou trecho de um dos vídeos em que Thiago Ruiz teria sido humilhado por Mário Wilson, que em determinado momento falou que o militar era “policial bosta nenhuma”. Ele ainda frisou o instante em que Thiago mostrou o distintivo para provar ser membro da corporação.
Gahyva sinalizou que Mário bebia no dia do ocorrido e poderia estar embriagado momentos antes de puxar a arma que estava na cintura de Thiago, por não acreditar que ele realmente era policial, e que teria interpretado o ato de “coçar uma cicatriz” como uma ameaça ou ato de exibição.
O advogado de defesa do réu, Claudio Dalledone, pediu que os jurados julgassem o caso conforme a consciência de cada um, porém, que não julgassem somente Mário Wilson, mas também a conduta da vítima Thiago. Em seu entendimento, o investigador usou da legítima defesa.
“Não é só julgar a conduta de Mário Wilson, mas também daquele que tombou morto. Fácil é ser bom, difícil é ser justo. Julgar requer coragem, ruptura. Aqui nada é bonito, é tremendamente doloroso para a família enlutada, como é desgraçado e perverso para a família de um encarcerado. Esse policial civil, no uso do dever, teve de usar a arma para exercer o direito de viver”, citou.
Ele ainda reiterou que o réu atirou em prol da “sobrevivência”, em suas palavras, pois estaria sendo sufocado com um mata-leão por Thiago e prestes a perder a consciência.
“Será que do lado da vítima sempre teremos aquela figura que não procurou as coordenadas de sua própria vitimização? Será que haverá sempre a certeza de que, porque morreu desgraçadamente, não foi o artífice de sua própria execução?”, questionou aos jurados.

Três dias de júri
O júri iniciou na terça-feira (12) após sucessivos adiamentos e até mesmo anulação de outro júri iniciado em dezembro do ano passado.
Foram ouvidos em depoimentos a viúva de Thiago, Walkíria Filipaldi Corrêa, amigos do réu e da vítima que estavam na conveniência no dia do crime, além de delegados que atuaram no caso. O processo encerrou nesta quinta-feira (14).
Além da longa duração, o ato também foi marcado pela repercussão de diversos momentos de embates, desentendimentos e troca de farpas entre a equipe de defesa do réu e do promotor. Interrupções e comentários ácidos ocorreram de ambos os lados em vários momentos do júri.
Entre os principais temas abordados estiveram a ausência de brasão da PM na arma que era de Thiago e foi avistada por Mário, e também o suposto uso de drogas por parte da vítima, identificado por substância semelhante a cocaína no laudo de exame toxicológico de sangue.
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