A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) suspendeu, nesta sexta-feira (19), os atendimentos na Maternidade Isaïe Jeanty, em Cité Soleil, região de Porto Príncipe, capital do Haiti, após o aumento da violência armada nos arredores da unidade de saúde.
Segundo a entidade, os confrontos começaram a se intensificar na noite de 13 de junho e atingiram diretamente a região onde fica a maternidade, apoiada pela MSF. Com o hospital sob risco, equipes médicas foram retiradas do local e as atividades precisaram ser interrompidas.
A suspensão agrava a situação de milhares de mulheres que vivem em Cité Soleil, área com cerca de 300 mil moradores e onde o acesso à saúde já era extremamente limitado. Com o fechamento da maternidade, os cuidados de saúde sexual e reprodutiva se tornaram praticamente inexistentes na região.
Nos últimos cinco dias, confrontos entre grupos armados foram registrados nos bairros de Belekou, Fort-Dimanche e Cais Jérémie. Os tiros chegaram a atingir os muros da Maternidade Isaïe Jeanty, no bairro de Chancerelles, provocando pânico e deslocamento de moradores.
Na noite de 15 de junho, mais de cem pessoas, a maioria mulheres e crianças, buscaram abrigo e acesso à água dentro da maternidade enquanto fugiam dos combates. Uma mulher foi atingida na perna por uma bala perdida dentro da unidade e precisou ser estabilizada pelas equipes médicas no local.
O hospital da MSF em Tabarre também recebeu pessoas feridas durante os confrontos na região.
Mesmo com a escalada da violência, a organização informou que manteve, por alguns dias, atendimentos de emergência, estabilização de pacientes e encaminhamentos para outras unidades. No entanto, a situação se tornou insustentável na manhã desta sexta-feira, quando a equipe foi evacuada.
“Tentamos fornecer um nível mínimo de suporte vital à população com uma equipe reduzida e capacidade limitada. Atendemos várias mulheres que conseguiram chegar à maternidade apesar da insegurança, incluindo uma que deu à luz gêmeos. Mas hoje não podemos mais continuar: o hospital está crivado de balas, nossas equipes estão exaustas e tornou-se extremamente difícil para as ambulâncias encaminharem pacientes e encontrarem instalações capazes de recebê-las”, afirmou Nicholas Tessier, coordenador de projeto da MSF no Haiti.
A entidade alerta que muitas mulheres da região já eram obrigadas a dar à luz em casa, em condições precárias, o que aumenta o risco de complicações obstétricas. Com a suspensão dos atendimentos na Isaïe Jeanty, as opções de assistência se tornaram ainda mais escassas.
Em maio, a MSF já havia suspendido temporariamente as atividades em outro hospital mantido pela organização em Cité Soleil, localizado a poucos quilômetros da maternidade. A unidade reabriu gradualmente no início de junho, mas a nova escalada da violência voltou a ameaçar o funcionamento do sistema de saúde local.
A organização pediu que civis sejam respeitados e que as unidades de saúde sejam protegidas, para que equipes médicas consigam atender a população em segurança.
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