Relatos de uma antiga funcionária e de mães de crianças que frequentavam creche particular denunciada por maus-tratos em Nova Andradina relevam a crueldade vivida dentro do estabelecimento. Os alunos eram trancados em um quarto escuro como forma de punição, além de serem submetidos a episódios de agressão física e negligência, diariamente.
Uma funcionária do estabelecimento, que denunciou o caso e preferiu não se identificar por questões de segurança, detalhou a rotina de privação e negligência impostas às crianças menores. Em depoimento, ela relatou que a responsável pelo local proibia expressamente os cuidados básicos de higiene:
“Aí tinha criancinhas menores também que usavam fraldas e as crianças faziam necessidade. Quando a gente ia falar que ia trocar, ela não deixava, que era para deixar a criança feito o que ela tinha feito, que ela ia fazer de novo e não tinha necessidade da troca.”
Mães de ex-alunos do local também relataram mudanças bruscas de comportamento e sinais de agressão física. A mãe de duas crianças que estudavam na creche descreveu a reação da filha mais nova ao chegar ao local:
“Eu comecei a desconfiar quando a menina mais nova chorava para não ir para lá. Eu encostava na calçada, encostava o carro assim na frente da fachada, ela já chorava que ela não queria descer. E aí a gente já começa a suspeitar, né?”
A partir da suspeita, a mãe conversou com o filho mais velho, que confirmou os episódios de violência física sofridos no estabelecimento:
“Conversando com o meu menino mais velho, ele relatou que realmente algumas coisas aconteciam assim, agressão, puxão de cabelo, tapa na cabeça.”

Depois que o caso ganhou repercussão, as famílias que mantinham as crianças na creche começaram a receber informações ainda mais preocupantes: as agressões não eram recentes. Entre os relatos, o de que as crianças “malcomportadas” eram trancadas em um quarto escuro como forma de punição.
Diante das denúncias recebidas por múltiplos canais, o Conselho Tutelar acionou a Polícia Militar para averiguar a situação no endereço da creche. O estabelecimento operava por meio de contratação direta pelas famílias e, segundo a Prefeitura de Nova Andradina, não possui qualquer vínculo com a administração pública nem faz parte da rede municipal de ensino.
Agora, as investigações estão nas mãos da Polícia Civil e do Ministério Público de Mato Grosso do Sul. Em nota, os responsáveis pela creche afirmaram que pretendem esclarecer os fatos e que sempre pautaram as atividades no “respeito, cuidado e dignidade das crianças”. Também afirmaram que estão à disposição das autoridades durante as apurações.
As atividades da creche estão suspensas.
Confira as notas da Polícia Civil e do MPMS
A Polícia Civil informa que tomou conhecimento, por intermédio dos veículos de imprensa , de possíveis maus-tratos envolvendo crianças em uma creche no município de Nova Andradina/Ms.
Até o presente momento, apenas uma genitora compareceu à Delegacia de Polícia, identificou-se formalmente e prestou esclarecimentos acerca dos fatos.
Diante da gravidade da situação, a Polícia Civil solicita que outras pessoas que tenham conhecimento dos acontecimentos, especialmente mães e pais de crianças que frequentam a instituição, compareçam à Delegacia para serem devidamente identificados e formalmente ouvidos.
A colaboração daqueles que possuam informações relevantes, bem como fotografias, vídeos ou outros elementos que possam contribuir para o esclarecimento dos fatos, é fundamental para o avanço das investigações.
A Polícia Civil reforça a importância de que todos aqueles que tenham informações ou provas procurem a Delegacia de Polícia, contribuindo para o esclarecimento dos fatos e a responsabilização dos eventuais envolvidos, na forma da lei
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul está com o caso sob total atenção, acompanhando de perto e adotando todas as providências necessárias. A atuação está dividida e ocorre em duas frentes institucionais:
No âmbito criminal, por meio da 3ª Promotoria de Justiça, o Ministério Público está acompanhando as investigações conduzidas pela Polícia Civil para a devida apuração penal dos fatos e identificação de eventuais tipos penais.
No âmbito da proteção dos direitos da criança e do adolescente, a 2ª Promotoria de Justiça — que possui atribuição na área — instaurou procedimento próprio para averiguar a situação e tomar todas as providências cabíveis diante de eventuais violações de direitos.