Mato Grosso descobriu como produzir riqueza em uma escala que poucos estados brasileiros conseguiram alcançar. Soja, milho, algodão, carne e outros produtos transformaram a economia estadual e colocaram o Estado entre os grandes protagonistas do comércio internacional.
Em 2024, Mato Grosso exportou US$ 27,6 bilhões, e soja, milho, algodão e carnes responderam por cerca de 83% desse valor.
É uma conquista extraordinária. E justamente por isso merece uma pergunta incômoda: o que estamos fazendo com essa riqueza para preparar o próximo ciclo?
Não se trata de imaginar o fim do agronegócio. Ao contrário. A tendência é que Mato Grosso continue sendo uma potência na produção de alimentos, fibras e proteínas. O próprio Ministério da Agricultura aponta novas oportunidades de expansão e diversificação do agronegócio mato-grossense, impulsionadas pela abertura de mercados, logística e demanda internacional.
Mas nenhuma economia pode depender eternamente das mesmas vantagens, dos mesmos produtos e das mesmas condições de mercado.
Preços internacionais mudam. Tecnologias mudam. Consumidores mudam. Países mudam suas políticas comerciais. Novas rotas logísticas aparecem. A própria tecnologia pode alterar profundamente a maneira como produzimos, transportamos e comercializamos aquilo que hoje parece indispensável.
A questão, portanto, não é escolher entre o campo e a cidade, entre o agronegócio e a indústria, entre produção e tecnologia. É fazer com que um fortaleça o outro.
Mato Grosso ainda exporta majoritariamente produtos ligados às cadeias tradicionais do agronegócio. Isso significa que existe uma enorme oportunidade de avançar na transformação daquilo que produzimos aqui. Mais indústria, tecnologia, pesquisa, biotecnologia, alimentos processados, máquinas, serviços especializados e empresas capazes de vender conhecimento para o próprio setor produtivo.
O futuro não está apenas em produzir mais soja. Está também em desenvolver as tecnologias utilizadas para produzi-la, processá-la, transportá-la e comercializá-la. Isso muda também o papel das nossas cidades.
Cuiabá pode ser muito mais do que uma capital administrativa. Pode consolidar-se como centro de serviços especializados, saúde, educação, tecnologia, finanças, comunicação e negócios para uma das regiões econômicas mais importantes do país. Sinop, Rondonópolis, Sorriso, Lucas do Rio Verde e outras cidades também terão de descobrir suas próprias vocações dentro dessa nova etapa.
E há um elemento ainda mais importante: as pessoas. Não haverá diversificação econômica sem profissionais qualificados. Não haverá indústria de alta tecnologia sem engenheiros, técnicos e pesquisadores. Não haverá empresas inovadoras sem jovens preparados para criá-las. E não haverá cidades competitivas se os talentos formados aqui precisarem sair para encontrar oportunidades em outros lugares.
Por isso, o investimento em educação, universidades, formação profissional e inovação não pode ser tratado como despesa acessória. É infraestrutura econômica.
Mato Grosso já demonstrou que sabe produzir riqueza. O próximo desafio é demonstrar que sabe transformar riqueza em conhecimento, conhecimento em empresas e empresas em oportunidades para sua própria população.
Talvez seja essa a verdadeira questão para as próximas décadas. Não saber se Mato Grosso continuará rico, mas se conseguirá construir uma economia suficientemente diversificada para continuar prosperando quando as circunstâncias mudarem.
Porque a riqueza pode mudar de produto, de mercado, de tecnologia e até de lugar. O que não pode mudar de lugar é a nossa capacidade de construir o futuro.
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*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.