Apesar de compartilharem a mesma sigla partidária, os prefeitos de Cuiabá e Várzea Grande, Abílio Brunini e Flávia Moretti, protagonizam um dos embates políticos mais explícitos dentro do Partido Liberal (PL) em Mato Grosso. O pivô da discórdia: a decisão do prefeito cuiabano de retirar o município do Consórcio Intermunicipal de Saúde da Região do Vale do Rio Cuiabá (CISVARC), alegando corrupção, favorecimento e má gestão.
Abílio acusa o consórcio de superfaturamento nas compras públicas, com valores até 200% acima do mercado. Segundo ele, um dos casos mais emblemáticos foi a aquisição de cadeiras de rodas por R$ 4,2 mil, quando o custo real não ultrapassaria R$ 1 mil. Além disso, o prefeito afirmou haver nepotismo na administração do consórcio, ao citar que o diretor seria irmão do presidente da entidade. “Você não acha incoerente o diretor ser irmão do presidente?”, questionou Abílio em uma coletiva de imprensa.
A decisão do gestor cuiabano causou reação imediata da prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, que defende a permanência no CISVARC e classificou a saída de Cuiabá como um movimento que fragiliza a saúde pública regional. Flávia também rebateu insinuações de que teria tentado aliciar a secretária de Saúde de Cuiabá para manter o município vinculado ao consórcio. “Não, não. A gente fez uma tratativa de convencimento entre as secretárias, conversando, pedindo. Foi um esforço técnico e político legítimo”, disse a prefeita.
Flávia ressaltou ainda que o enfraquecimento do consórcio pode abrir margem para que Cuiabá maior compradora de medicamentos do grupo tente assumir a presidência do CISVARC, o que, segundo ela, comprometeria a lógica cooperativa do sistema.
Apesar das justificativas de Abílio, a decisão de deixar o consórcio provocou crise no fornecimento de medicamentos em Cuiabá. Pacientes de diversas unidades de saúde relatam falta de remédios de uso contínuo, inclusive para crianças com condições crônicas e pacientes psiquiátricos. Reportagens apontam que a saída abrupta gerou um vazio logístico e contratual.
O prefeito, por sua vez, responsabiliza fornecedores por uma espécie de “boicote” à nova gestão. “Eles estão chantageando a prefeitura porque cobramos transparência e preços justos. A compra direta, sem consórcio, é possível e mais vantajosa para Cuiabá”, disse.
Embora ambos os prefeitos pertençam ao mesmo partido político, o episódio revela uma divergência de visão administrativa e um jogo político que expõe disputas internas. De um lado, Abílio defende a centralização das compras pela capital, com discurso técnico e moralizador. Do outro, Flávia argumenta em favor da gestão integrada e critica o que considera um rompimento unilateral e prejudicial à população.
Ainda em tom ríspido na última coletiva de Flávia Moretti, respondeu duramente á imprensa: “Na coletiva dele, vocês perguntam pra ele”.
Enquanto isso, a população aguarda uma solução definitiva que garanta o abastecimento regular de medicamentos e insumos na capital e região metropolitana.
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*Sob supervisão de Gene Lannes