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como será o true crime inspirado em Farah Jorge Farah

Recife (PE) — Previsto para chegar aos cinemas em setembro deste ano, Doutor Monstro é mais uma novidade para os fãs de true crime ficarem de olho. Dirigido por Marcos Jorge, mesmo diretor de Estômago (2007), o filme é inspirado no caso real de Farah Jorge Farah: o cirurgião plástico que esquartejou uma ex-paciente em 2003.

Depois da estreia de longa na 30ª edição do Cine PE, tradicional festival de cinema de Recife (PE), o cineasta revelou detalhes inéditos da produção e bastidores da preparação dos protagonistas Taís Araujo, Marat Descartes e Guilherme Weber.

O caso macabro chocou o Brasil à época. Farah Jorge Farah, cirurgião plástico e endocrinologista, era uma figura conhecida em Santana, bairro da Zona Norte de São Paulo (SP). Simpático, cortês, educado, polido e dedicado à Igreja e ao cuidado dos pais, o médico era considerado uma figura exemplar pela vizinhança.

Em janeiro de 2003, uma das pacientes do doutor, Maria do Carmo Alves, foi ao consultório do profissional depois do final do horário do expediente. Ela não saiu com vida. Sedada para um suposto procedimento, a dona de casa foi esquartejada ainda viva. Os membros da vítima foram encontrados no porta-malas do carro do cirurgião dias depois.

Para a construção da trama, a produção de Doutor Monstro se inspirou principalmente nas sessões do julgamento de Farah Jorge Farah. O longa, cujo segundo ato é dedicado a retratar a disputa do cirurgião na Justiça, é descrito pelo próprio diretor como um “filme do tribunal”, um gênero que acredita ter sido pouco explorado no Brasil.

Para Marcos Jorge, a escolha de dar foco não ao crime em si, mas à resposta da Justiça ao caso, escancara uma realidade da violência contra a mulher no Brasil. À época, leis como a Lei Maria da Penha ou a tipificação de feminicídio no código penal ainda não existiam.

Para dar vida aos personagens, o elenco do filme recebeu instruções de uma equipe jurídica e acompanhou sessões de julgamentos de crimes hediondos. “Ali não era um filme, era a vida de uma família. Era uma história fortíssima, horrível. E no tribunal, eu percebi que a gente não pode escutar essas histórias como se fossem só mais uma”, detalhou.

Os números de feminicídio no Brasil são alarmantes. E quando esse crime aconteceu, esse termo ainda nem existia [no Código Penal]. Então é muito importante que a gente reveja agora e olhe como a mídia e a Justiça esquecem essas histórias e transformam tudo em uma espetacularização”, ressalta Taís.

O que é real em Doutor Monstro

A principal mudança está na promotoria do caso. Ao contrário da vida real, não é um homem, mas sim uma mulher negra, interpretada por Taís Araujo, quem assume o papel de buscar a condenação do assassino. “Foi um convite que eu não pude recusar”, afirma a atriz.

Taís Araujo em Doutor Monstro
Taís Araujo em Doutor Monstro

Já o advogado de defesa, interpretado por Guilherme Weber, também é um personagem criado para a trama. Na realidade, Jorge Farah teve como advogado o criminalista Roberto Podval, o mesmo que recentemente deixou a defesa de Daniel Vorcaro e que também defendeu o casal Nardoni. Uma cena do filme, inclusive, é baseada em um dos episódios do julgamento dos personagens de Tremembé – quando o advogado é atingido com um soco no rosto na porta do tribunal.

“O tribunal no filme é inquietante, porque o tribunal do Farah foi inquietante. É alguém que matou e esquartejou alguém enquanto ela estava sedada, enquanto ainda estava viva. E ainda assim ele recebe direito a uma defesa.”

Taís Araujo em Doutor Monstro
Taís Araujo em Doutor Monstro

Para o diretor, porém, uma das principais mudanças é o nome da vítima. No filme, Maria do Carmo Alves é representada por Carmen (Marcelina Fialho). O nome é uma referência à ópera Carmen, do compositor francês Georges Bizet, que, segundo Marcos Jorge, sintetiza as represálias que a falecida dona de casa sofreu da Justiça e da mídia.

Assim como na tragédia francesa, a relação de Maria e Farah era conturbada, marcada por obsessão e ciúmes.

Anos antes, ela buscou os serviços do doutor para retirar um cisto na virilha. O procedimento acabou deixando uma cicatriz, o que feriu a autoestima da paciente. Segundo análises de especialistas consultados pela produção do filme, Farah tinha um comportamento abusivo com as pacientes, estabelecendo uma relação de dependência ao atacar suas inseguranças femininas, com a promessa de procedimentos estéticos a baixos preços.

Autos do processo revelam que durante um período de oito meses, Maria do Carmo fez quase 6 mil ligações ao consultório, celular e familiares do médico. Às autoridades, o cirurgião afirmou que tinha um caso extraconjugal com a paciente casada.

O filme, porém, se dedica a mostrar como essa seria uma versão construída pela defesa e endossada pelo machismo que ainda julga e culpabiliza mulheres, mesmo quando na posição de vítimas.

“Mesmo que ela não seja a ‘vítima perfeita’, nós devemos defender essa mulher. Ela era extrovertida, passional, vaidosa; o que para a sociedade é igual a ‘ex-amante’.”

O Doutor e O Monstro

Segundo o diretor, o filme busca trabalhar as dualidades que marcaram não só a cobertura do caso pela mídia mas, principalmente, o julgamento de Jorge Farah: doutor e monstro; vítima e acusada; justiça e injustiça; verdade e mentira.

Durante o processo, Farah Jorge Farah passou pelo teste de Rorschach – o mesmo realizado com criminosas como Suzane Von Richtofen e Elize Matsunaga. O psiquiatra responsável pelo teste negou que o doutor pudesse ser um psicopata e o descreveu como sendo “uma pessoa boa e calma”.

A obra tenta desconstruir essa imagem do cirurgião. Especialistas consultados pela produção creem que Jorge Farah sofreria de uma espécie de psicose delirante – que no filme se traduz para uma construção do personagem semelhante a vilões do cinema como Norman Bates, de Psicose; e Bufallo Bill, de O Silêncio dos Inocentes.

Isso é o que explicaria os comportamentos obsessivos com as pacientes e a forma grotesca com a qual o médico tirou a própria vida.

Marat Descartes como Farah Jorge Farah em Doutor Monstro
Marat Descartes como Farah Jorge Farah em Doutor Monstro

O doutor tinha cumprido menos de quatro anos de prisão quando uma decisão da Justiça reverteu a condenação para que ele pudesse responder em liberdade.

Em 2017, porém, o relator do caso, ministro Nefi Cordeiro, atendeu a um pedido do Ministério Público (MP) e decretou que o condenado voltasse ao cárcere. Ao cumprir o mandado de prisão, os policiais encontraram uma porta trancada e um rádio que tocava o canto fúnebre Lacrimosa, de Mozart. Quando um chaveiro finalmente permitiu a entrada dos agentes, eles encontraram apenas o corpo morto de Farah.

“Ele injetou silicone nos seios e nas nádegas”, confirmou o delegado à frente do caso. “Quando cheguei, ainda dava pra ouvir baixinho uma música fúnebre. Ele vestia uma saia e um top. Quando finalmente entrei na casa, ele já estava morto e tinha muito sangue no quarto”, informou.

“Tudo isso que ele era não justifica o que ele fez. Nada justifica o que ele fez. E essa é a mensagem do filme”, conclui o diretor. Doutor Monstro tem previsão de estreia para o início de setembro.

*A jornalista viajou ao Cine PE a convite do festival.

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