Wesley Moreno/Power Mix
Nova Mutum/MT
O mercado brasileiro de etanol de milho atravessa um dos períodos de maior expansão de sua história e vem consolidando o Brasil como um dos principais destinos globais para investimentos em bioenergia. Impulsionado pela produção recorde de milho de segunda safra, por políticas voltadas à descarbonização e pelo aumento da demanda por combustíveis renováveis, o setor passou a receber aportes bilionários de empresas internacionais e ampliar sua relevância estratégica no agronegócio nacional.
A rápida evolução da indústria explica o interesse crescente dos investidores estrangeiros. Na safra 2025/26, a produção brasileira de etanol de milho deve se aproximar de 10 bilhões de litros, quase quatro vezes acima dos cerca de 2,65 bilhões de litros registrados no início da década. O avanço também foi favorecido pela ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passou de 27% para 30%, ampliando a demanda pelo biocombustível e oferecendo maior segurança para novos empreendimentos.
Além da produção de etanol, o diferencial competitivo do Brasil está no modelo de biorrefinarias integradas, que aproveitam praticamente todos os componentes do milho. As unidades industriais produzem DDG e DDGS para alimentação animal, óleo de milho, energia elétrica, biometano e dióxido de carbono biogênico para uso industrial, diversificando receitas, reduzindo riscos e elevando a rentabilidade das operações.
Outro fator que impulsiona o setor é o ambiente favorável aos investimentos. Dependendo da localização, os empreendimentos podem acessar linhas de financiamento do BNDES, recursos do Fundo Clima, incentivos fiscais estaduais, benefícios regionais administrados pela Sudam e Sudene, além de programas municipais de infraestrutura. O setor ainda conta com o RenovaBio, que permite às usinas comercializar Créditos de Descarbonização (CBIOs), criando uma nova fonte de receita baseada na eficiência ambiental.
Entre os investidores estrangeiros, a Inpasa, de origem paraguaia, lidera a expansão da indústria no Brasil. Desde sua chegada ao país, em 2018, a companhia anunciou investimentos superiores a R$ 9,7 bilhões, com projetos em Rio Verde/GO, Luís Eduardo Magalhães/BA, Balsas/MA, Rondonópolis/MT e Nova Mutum/MT, além das operações já existentes em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Maranhão.
O capital norte-americano também ganhou espaço no segmento. O Summit Agricultural Group participou da criação da FS Fueling Sustainability, considerada pioneira na produção industrial de etanol exclusivamente a partir do milho no Brasil. A empresa opera atualmente três unidades industriais em Mato Grosso, com capacidade próxima de 2,6 bilhões de litros anuais. Já a Cargill ampliou sua atuação ao incorporar a SJC Bioenergia e anunciar novos investimentos em Goiás, apostando na integração entre usinas de etanol de milho e de cana-de-açúcar para reduzir custos e aumentar a eficiência operacional.
Os Emirados Árabes Unidos também reforçaram sua presença no setor por meio da Mubadala Capital, controladora da Atvos, que anunciou sua primeira planta integrada de etanol de milho em Nova Alvorada do Sul (MS). A unidade terá capacidade para processar 642 mil toneladas de milho por ano, produzindo 273 milhões de litros de etanol, além de DDG e óleo de milho, utilizando a energia gerada pelo bagaço da cana para manter a operação durante praticamente todo o ano.
Enquanto isso, a britânica BP avalia novos projetos integrados às suas operações sucroenergéticas, e a chinesa COFCO International acompanha de perto a evolução do mercado brasileiro. Embora ainda não tenha oficializado investimentos em etanol de milho, especialistas apontam que sua ampla estrutura logística e a forte atuação na originação de grãos podem abrir caminho para futuros projetos voltados à produção de biocombustíveis, captura de carbono, biometano e combustíveis sustentáveis para aviação.
Além de abastecer o mercado interno, o etanol brasileiro amplia sua relevância internacional ao ser considerado uma alternativa para combustíveis marítimos e para a produção de SAF (Combustível Sustentável de Aviação). O reconhecimento internacional da baixa pegada de carbono do etanol de milho fortalece a competitividade do Brasil e amplia as perspectivas de exportação em um cenário global de crescente demanda por soluções energéticas de baixo carbono.
Com investimentos bilionários já confirmados e novos grupos avaliando oportunidades, o etanol de milho deixou de ser uma atividade complementar para ocupar posição estratégica no agronegócio brasileiro. A combinação entre abundância de matéria-prima, tecnologia industrial, incentivos governamentais e produção sustentável coloca o Brasil entre os principais polos mundiais de bioenergia e reforça seu protagonismo na transição energética global.
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