Em entrevista ao LIVRE, candidato ao governo defendeu diversificação econômica, estímulos a bairros periféricos, fortalecimento da indústria local e ações específicas para cada modalidade de crime
O empresário e candidato ao Governo de Mato Grosso, Maurício Coelho (Mobiliza), defendeu uma revisão dos incentivos fiscais concedidos pelo Estado como ponto de partida para diversificar a economia mato-grossense. Em entrevista ao O LIVRE, ele também apresentou propostas para estimular negócios em bairros periféricos, ampliar o mercado consumidor, desenvolver indústrias voltadas à demanda local e reorganizar a segurança pública por meio de metas e indicadores.
Autor de um livro técnico sobre análise eleitoral, Maurício trabalhou durante 15 anos com eleições e políticas públicas nas cinco regiões do país. Segundo o candidato, sua atuação profissional ocorreu exclusivamente com recursos privados, sem contratos decorrentes de licitações públicas. Agora, ele afirma colocar essa experiência a serviço de uma candidatura voltada especialmente aos trabalhadores urbanos.
Durante a entrevista, Maurício também descartou assumir secretarias em uma eventual administração de Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes ou mesmo na Prefeitura de Cuiabá. Questionado sobre seu futuro político em caso de derrota, afirmou não ter planos definidos além da atual disputa.
“Hoje eu não tenho plano nenhum para o futuro. Meu plano é: eu estou colocando uma candidatura e sinto que já estou fazendo um bem enorme para a sociedade”, declarou. Para ele, sua campanha já conseguiu inserir o debate sobre renúncias fiscais na agenda eleitoral.
Revisão das renúncias fiscais
Uma das principais propostas defendidas pelo candidato é a revisão dos benefícios tributários concedidos pelo Governo de Mato Grosso. Maurício afirma que o Estado deixa de arrecadar aproximadamente R$ 15 bilhões por ano por meio de renúncias fiscais.
Ele ressalta que não pretende criar novos impostos nem acabar completamente com os incentivos. A proposta, segundo o candidato, é avaliar quais benefícios ainda cumprem uma função econômica e substituir aqueles que já não seriam necessários.
“Renúncia fiscal é uma forma de fazer gestão. Todo governo hoje tem renúncia fiscal, mas você tem que olhar para onde elas estão indo, em que volume e se aquilo está atingindo os objetivos governamentais”, explicou.
Maurício citou o setor de etanol, que, conforme declarou, recebe quase R$ 5 bilhões em incentivos. Na avaliação dele, os benefícios foram importantes para consolidar a atividade, mas o cenário atual permitiria que as empresas continuassem investindo mesmo sem o mesmo volume de renúncias.
“O investimento já aconteceria se você não tivesse dado o incentivo. Houve um momento em que precisou; se não tivesse dado, ninguém ia produzir. Hoje não precisa”, argumentou.

Incentivo para bairros periféricos
Embora critique a atual distribuição das renúncias, Maurício pretende usar o mesmo instrumento para incentivar a abertura de empresas em bairros periféricos criados a partir de programas habitacionais.
A proposta prevê condições diferenciadas e temporárias de ICMS para estabelecimentos como farmácias, supermercados e outros comércios que se instalarem nessas regiões. O objetivo seria levar empregos e serviços para perto dos moradores, além de reduzir a necessidade de deslocamento diário até as áreas centrais.
“Você cria regimes de ICMS diferentes para quem vai abrir uma farmácia, um supermercado ou um comércio, por tempo limitado. Não é eterno. É para levar infraestrutura e emprego para perto das pessoas”, afirmou.
Para o candidato, toda renúncia fiscal provoca algum tipo de distorção no mercado. A decisão de concedê-la, portanto, deve considerar se o benefício produzirá resultados positivos para o conjunto da economia e da população.


Renda, energia e indústria local
Maurício defende que a diversificação econômica depende da ampliação da renda disponível da população. Para isso, propõe reduzir o peso de despesas básicas, como alimentação, energia e transporte, no orçamento das famílias.
Com mais dinheiro disponível, argumenta o candidato, a população poderia consumir produtos e serviços além dos itens essenciais, fortalecendo o mercado interno. Esse processo, combinado com energia mais barata, criaria condições para o surgimento de novas indústrias.
A proposta não é transformar Mato Grosso em concorrente direto dos grandes centros industriais ou da China. Maurício pretende estimular fábricas voltadas ao consumo local, como as de roupas, móveis, calçados e alimentos.
“A gente não tem fábrica de chinelo, fábrica de biscoito direito, fábrica de móveis, de roupa. Coisas simples de consumo local que, se você não fabricar aqui, o dinheiro vai para São Paulo”, disse.
Na visão do candidato, a capital possui maior vocação para a prestação de serviços, enquanto o interior poderia receber parte significativa das novas indústrias.


Serviços complexos e tecnologia
Outra frente apresentada por Maurício é o desenvolvimento de serviços complexos, definidos por ele como atividades que podem ser realizadas de qualquer lugar e comercializadas para um mercado global.
O candidato considera que Mato Grosso precisa participar não apenas da produção agrícola, mas também do desenvolvimento e da propriedade das tecnologias usadas no campo. Ele citou sementes e pesquisas como exemplos de áreas nas quais o Estado ainda dependeria de empresas e instituições externas.
Maurício argumenta que a prosperidade baseada no aumento da produção de grãos e na valorização internacional dos alimentos pode não se repetir com a mesma força nos próximos anos. Por isso, defende que os recursos atualmente disponíveis sejam direcionados à diversificação da indústria e dos serviços.
“O que nos trouxe até aqui não vai nos levar aonde queremos. Ou a gente se compromete com um programa que usa o dinheiro atual para diversificar a indústria e os serviços, ou afunda”, afirmou.


Segurança com metas e responsáveis
Na segurança pública, Maurício propõe separar os crimes por modalidade e elaborar planos específicos para cada problema. A proposta prevê a criação de indicadores, o estabelecimento de metas e a designação de responsáveis pelos resultados de áreas como feminicídio, estelionato, roubo de veículos e atuação de organizações criminosas.
Ele citou o Espírito Santo como exemplo de estado que teria conseguido melhorar seus índices por meio de organização e gestão. Também mencionou o combate aos sequestros e ao chamado “novo cangaço” como casos em que ações coordenadas produziram resultados.
“Quando você entende o crime, cria indicadores, um plano de ação e nomeia um responsável, o resultado vem”, declarou.
O candidato defende avaliações mensais sobre o cumprimento dos planos. Caso as medidas não tenham sido executadas, o responsável deveria ser substituído; se foram cumpridas sem alcançar os resultados esperados, o planejamento precisaria ser revisto.
“O que não dá é tratar a segurança soltando a polícia, esperando sete anos dando tudo errado para depois falar que vai comprar arma e ter tolerância zero. O que funciona é gestão de projetos”, acrescentou.


Trabalhador urbano na pauta
Ao explicar por que deseja governar Mato Grosso, Maurício afirmou que sua candidatura procura ampliar o espaço dos trabalhadores urbanos no debate político e econômico estadual.
Segundo ele, profissionais como jornalistas, motoristas de aplicativo, enfermeiros, médicos e dentistas não recebem a mesma atenção destinada aos setores tradicionalmente representados na política de Mato Grosso.
“Todo o meu plano de governo é para trazer esse trabalhador que está alijado”, disse. “Os outros só querem trocar o nome de quem está no poder, mas não estão, de fato, trocando a pauta.”

