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O Haiti é aqui! Haitianos aplacam saudade com torcida em SP

Por algumas horas, o Haiti deixou de estar a mais de cinco mil quilômetros de distância. Na noite desta sexta-feira, o auditório da Igreja Missão Paz, na rua do Glicério, 225, na região da Liberdade, em São Paulo, transformou-se em uma arquibancada improvisada, um palco de música e dança e, sobretudo, em um ponto de encontro para dezenas de haitianos que encontraram na Copa do Mundo uma oportunidade de matar a saudade de casa.

Faltavam cerca de duas horas e meia para a bola rolar para Brasil e Haiti, pela segunda rodada do Grupo C do Mundial de 2026, quando o auditório já estava tomado por bandeiras, conversas em crioulo haitiano e francês, celulares registrando cada momento e uma animação que parecia ignorar o relógio. A festa havia começado muito antes do apito inicial.

A música comandava o ambiente desde cedo. Em roda, homens e mulheres cantavam, dançavam e batiam palmas, enquanto crianças corriam e jogavam bola no pátio. Não havia sinais de tensão por enfrentar justamente a Seleção Brasileira. O sentimento predominante era outro: orgulho.

Depois de 52 anos, o Haiti voltou a disputar uma Copa do Mundo. E, ainda que distante dos gramados dos Estados Unidos, a comunidade haitiana em São Paulo parecia determinada a viver cada minuto da experiência como se estivesse presente no estádio.

Entre os presentes, uma criança acompanhava atentamente a movimentação dos adultos. Questionada sobre quem era seu jogador favorito, respondeu sem hesitar: Vinicius Júnior. O sonho, no entanto, vai além de apenas assistir aos jogos.

“Quero ser jogador de futebol”, disse, antes de completar com um sorriso. “Quero ser uma mistura do Vinicius com o Neymar.”

A poucos metros dali, um homem chamava a atenção pela vestimenta. De um lado, a camisa do Brasil. Do outro, as cores do Haiti. O traje dividia igualmente os dois países que hoje fazem parte de sua identidade. Durante boa parte da noite, ele foi solicitado para fotos por famílias, jovens e crianças, tornando-se uma espécie de símbolo do sentimento compartilhado por muitos presentes: a convivência entre a gratidão pelo país que os acolheu e o orgulho pelas próprias origens.

(Foto: Murilo Gomes/Gazeta Esportiva)

Do lado de fora do auditório, Nathalie aproveitava a movimentação para vender pulseiras, colares e outros acessórios. A maioria das peças custava R$ 10. Grávida, ela trabalha como ambulante na região da República e está há um ano vivendo no Brasil.

“Estou há um ano no Brasil. Estou montando minha família aqui e vai vir uma brasileira”, contou, acariciando a barriga.

Questionada sobre a partida, não escondeu o carinho pelos dois países. “Se o Brasil ganhar, eu ganho. E se a gente ganhar também, eu ganho.”

A frase resume bem o sentimento de muitos haitianos presentes na Missão Paz. A torcida estava dividida, mas o coração parecia suficientemente grande para abraçar duas bandeiras.

Trajado com roupas da seleção haitiana e com um sorriso difícil de esconder, Lukemane descrevia a reunião como um encontro familiar. “Estou muito feliz de estar aqui. É uma família”, disse.

Morador do Ipiranga, ele vive no Brasil há dois anos e afirma ter encontrado no país uma nova oportunidade de vida.

“Eu sempre torci para o Brasil, mas meu sangue é haitiano. Se o Brasil ganhar hoje, tudo bem, porque estou aqui, me considero brasileiro. Depois de 52 anos, meu país conseguiu chegar na Copa do Mundo. Estou muito, mas muito feliz.”

A trajetória de Lukemane se assemelha à de milhares de compatriotas que deixaram o Haiti em busca de melhores condições de vida.

“Vim para o Brasil para procurar uma vida melhor e ajudar minha família. Não tem muita diferença do Haiti, gosto daqui. Moro no Ipiranga, tem muito haitiano lá, e fico muito feliz em ver muitos aqui para assistir à partida.” A adaptação ao Brasil também passou pelo futebol:  “Aqui no Brasil, sou Flamengo”.

Apesar da alegria pela nova vida, a distância ainda pesa: “Trouxe uma parte da família, mas sinto muita falta deles. Principalmente das minhas tias que não vieram.”

No local, o cardápio era predominantemente brasileiro. Churrasco, churros e outros lanches ajudavam a alimentar os torcedores durante a espera pelo jogo. A comida não remetia ao Caribe, mas a música, o idioma e os abraços entre amigos compensavam qualquer ausência gastronômica.

A trilha sonora da noite ficou sob responsabilidade de Ben Love. Cantor e compositor haitiano de 29 anos, ele vive no Brasil há uma década. A mãe mora em Curitiba, mas a saudade do Haiti continua presente.

“Estou muito feliz por estar aqui, mas sinto muita falta de casa. A cultura brasileira é muito diferente”, contou. Dividido entre as duas seleções, admite que o coração pendia um pouco mais para o lado haitiano.

Antes do início da partida, Ben pegou o microfone e interpretou “O Sol da Meia-Noite”. A música, conhecida por transmitir mensagens de esperança, renovação e fé, encontrou eco entre os presentes, muitos deles que reconstruíram a vida em um novo país sem abandonar as lembranças da terra natal.

Pouco antes de a bola rolar no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, a celebração deu lugar ao silêncio. De pé, os haitianos entoaram com emoção “La Dessalinienne”, o hino nacional do Haiti.

As vozes ganharam intensidade a cada estrofe. O canto homenageia os heróis da independência, exalta o sacrifício em defesa da pátria e convoca as novas gerações a marcharem unidas por um país livre, forte e próspero. Durante alguns minutos, o auditório transformou-se em uma extensão simbólica do estádio.

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A emoção não terminou com o apito inicial. Sempre que as câmeras mostravam a torcida haitiana presente na Filadélfia, o auditório explodia em gritos, aplausos e assobios. Era como se cada rosto exibido no telão representasse um parente distante, um amigo que ficou para trás ou um pedaço da terra natal.

Dentro de campo, porém, a Seleção Brasileira mostrou superioridade. Matheus Cunha marcou duas vezes ainda no primeiro tempo, enquanto Vinicius Júnior fechou a vitória por 3 a 0, resultado que colocou o Brasil na liderança do Grupo C, com quatro pontos.

O Haiti segue sem pontuar no Mundial, mas a derrota não foi suficiente para apagar a importância da noite. Para muitos dos presentes, a classificação talvez nem fosse o principal objetivo.

A oportunidade de cantar o hino nacional em coro, encontrar compatriotas, dançar músicas do país de origem, falar a própria língua e dividir lembranças foi suficiente para transformar uma partida de futebol em algo muito maior.

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