Que comportamento se espera de um delegado de polícia?
Representantes da lei na linha de frente da sociedade, o mínimo que esperado dos delegados é que sejam pessoas éticas e sigam as regras que fazem cumprir. Isso toma uma proporção ainda maior naqueles que acumulam funções de destaque dentro da Polícia Civil. Mas, na prática, isso é apenas expectativa — um vislumbre do que deveria ser.
Primeiro, tenho que reforçar aqui que não estou generalizando. A “indireta” tem nome e sobrenome.
Nos últimos dias, relatos de assédio moral e sexual por parte do delegado de polícia e ex-vereador de Campo Grande, Wellington de Oliveira, ganharam força com a divulgação de denúncias feitas por alunas da Academia da Polícia Civil do Estado de Mato Grosso do Sul (Acadepol), que o tiveram como professor no ano passado. (Leia o posicionamento do delegado mais abaixo)
Os fatos narrados pela turma revelam um comportamento que ultrapassava o inadequado. As aulas, pensadas para formar bons policiais, eram repletas de comentários sobre a aparência física das alunas e partes de seus corpos. Mais de uma vez, as perguntas partiam para o lado sexual.
Imagine você, aluna, ser questionada na frente dos colegas e futuros companheiros de trabalho sobre o tempo de duração das suas relações sexuais ou a sua posição favorita.
Foi exatamente isso que aconteceu. Algo bem longe de uma conversa de mesa de bar, com um amigo íntimo. Eram perguntas vindas de um delegado, seu professor — que um dia poderia ser seu chefe — e, ainda por cima, carregadas de insinuações.
Toda a situação toma uma proporção ainda maior quando colocamos na balança o papel de Wellington dentro da Polícia Civil. Hoje, ele assume a função de Ouvidor, a pessoa responsável por receber sugestões, elogios, reclamações e denúncias. E, sabendo da importância do cargo, ele também fez questão de deixar claro que, se a situação fosse exposta, “nada mudaria”.
Mas, em casos como esse, tudo de que se precisa é do pontapé inicial. Ao longo da semana, os relatos que chegaram à Capivara Criminal mostram anos de abuso de poder e de assédio moral cometidos pelo delegado.
“Monstro”. Era assim que Wellington era conhecido nos bastidores da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Um apelido dado como reflexo do comportamento do delegado, que costumava humilhar e maltratar subordinados.
“Ele humilha homem e mulher. Mas com mulher tem um ‘quezinho’ a mais de superioridade.”
Muitas mulheres que trabalharam com Wellington foram levadas ao limite. Foram desestimuladas, tiveram sua competência colocada em xeque, foram diminuídas e tiveram a saúde mental destruída pelo convívio e pelas humilhações frequentes. Aqui, os comentários sexuais também eram comuns:
“Você não merece o salário que recebe.”
“Você tá gostosa com essa roupa.”
“Que trabalho miserável.”
Parece repetitivo. E talvez seja. Exatamente como o comportamento do delegado e Ouvidor da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul era (ou ainda é): repetitivo e agressivo. De mais de uma pessoa, a constatação que ouvi foi a mesma: ele é uma pessoa ruim.
E o que me faz escrever é o convite a uma reflexão: como uma pessoa com esse comportamento pode ocupar a função de Ouvidor? Mais que isso, como alguém com denúncias de assédio moral e sexual contra mulheres pode integrar o Grupo Técnico criado para analisar casos de violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul?
São essas dúvidas que fazem as vítimas terem medo de falar. Porque, na mesma proporção que os relatos contra o delegado chegaram à coluna, chegaram também as dúvidas sobre a punição e o pânico de represália.
E não é para menos. Em anos de vida policial e política, Wellington assumiu funções importantes. Agora, em meio às denúncias, ganhou férias. Quase como um “descanso merecido até a situação acalmar”.
Diante dos relatos, procuramos a Polícia Civil, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) e o próprio delegado Wellington.
Em nota, a Polícia Civil informou que recebeu as denúncias e que elas foram formalmente encaminhadas à Corregedoria-Geral, responsável pela investigação “de condutas funcionais”. O MPMS comunicou que a apuração do caso está nas mãos do Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (GACEP).
O que diz o delegado?
Questionado sobre as denúncias, o delegado negou qualquer tipo de assédio, moral ou sexual. Explicou que o que houve foram interpretações erradas de casos usados por ele como exemplo em sala. Reforçou também que nunca teve qualquer questionamento sobre sua conduta profissional, “sempre pautada pela ética, respeito e compromisso com os alunos e com a instituição”.
Leia o posicionamento do delegado:
Não procede qualquer alegação de assédio, seja moral ou sexual, em relação à minha atuação como professor na Academia de Polícia Civil.
As disciplinas que ministrei, Criminologia aplicada a Segurança Publica e Teoria Geral da Investigação Criminal, são essencialmente técnicas, voltadas ao desenvolvimento do raciocínio investigativo. Utilizo estudos de caso e exemplos práticos — como é comum na formação policial em todas as academias de polícia — justamente para preparar os alunos para a realidade da atividade policial do dia a dia de nossa sociedade.
O que surgiu, ao que tudo indica, são interpretações isoladas e fora de contexto de situações que foram apresentadas em ambiente acadêmico, com finalidade exclusivamente didática.
Você sabe que a própria natureza da atividade policial envolve, muitas vezes, temas sensíveis, mas sempre tratados com responsabilidade, respeito e objetivo pedagógico — nunca com qualquer intenção inadequada.
Ao longo de mais de 20 anos na formação policial, nunca tive qualquer questionamento sobre minha conduta, sempre pautada pela ética, respeito e compromisso com os alunos e com a instituição.
O caso já está sendo analisado pela Corregedoria, com todo o devido cuidado e dentro da legalidade, e eu estou muito seguro quanto a atuação correta da docência. Sigo confiando nas instituições e à disposição para qualquer esclarecimento.

Confira as notas na íntegra:
Ministério Público de Mato Grosso do Sul
Em relação à solicitação, informamos que a situação está sob atenção do Gacep/MPMS e será tratada com o zelo que suas características exigem, buscando-se o aclaramento dos fatos de forma justa e célere. Neste momento, não é possível repassar outras informações, por se tratar de procedimento em sigilo.
Polícia Civil
A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul informa que recebeu as denúncias mencionadas e esclarece que os fatos foram formalmente encaminhados à Corregedoria-Geral da Polícia Civil, órgão competente para a apuração de condutas funcionais, tendo sido instaurado Auto de Investigação Preliminar (AIP), procedimento destinado à verificação inicial das circunstâncias noticiadas.
No curso da apuração preliminar, serão adotadas as diligências necessárias ao esclarecimento dos fatos, incluindo a oitiva das pessoas envolvidas, bem como a requisição de informações junto à Academia de Polícia Civil (ACADEPOL), especialmente no que se refere à disciplina ministrada, critérios de avaliação e demais elementos relacionados ao contexto relatado.
Esclarece-se, ainda, que a disciplina ministrada pelo aludido professor já se encontrava integralmente concluída quando do recebimento das denúncias, razão pela qual, no momento, não ministra mais aulas na ACADEPOL, bem como não participa atualmente de nenhuma outra atividade funcional relacionada às atividades acadêmicas em andamento na instituição.
A Polícia Civil ressalta que a apuração será conduzida com estrita observância dos princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, não sendo admitida a formação de juízo de valor antecipado antes da conclusão do procedimento, garantindo-se a imparcialidade e a regularidade na condução dos trabalhos pela Corregedoria-Geral.
A Instituição reafirma que toda notícia de eventual irregularidade é apurada com seriedade e responsabilidade, nos termos da legislação vigente e das normas disciplinares aplicáveis.