Um vídeo gravado na manhã desta segunda-feira (27) mostra um servidor da Prefeitura de Cuiabá tentando retirar um dos filhotes mortos do barracão improvisado utilizado pela Secretaria Municipal de Bem-Estar Animal antes da chegada da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec). A gravação foi feita no momento em que protetores da causa animal acompanhavam a situação no local.
Nas imagens é possível ver um dos servidores tentando sair do barracão com um saco preto onde estava o corpo de um dos filhotes mortes. Os protetores logo repudiam a ação já que a perícia ainda não tinha chegado no local.
As imagens ampliam a repercussão do caso, que já havia gerado críticas após a confirmação da morte de quatro filhotes mantidos em um espaço improvisado desde a última sexta-feira (24). Três animais morreram entre sábado (25) e domingo (26), enquanto o quarto óbito foi registrado entre domingo e esta segunda-feira (27).
Segundo informações apuradas pela reportagem, cerca de 13 cães diagnosticados com cinomose foram levados para o barracão, que pertence ao Centro de Controle de Zoonoses e era utilizado para abrigar animais de grande porte, como cavalos e bovinos. O ambiente foi usado de forma emergencial para isolar os filhotes até que houvesse vagas em clínicas veterinárias credenciadas.
Veja o vídeo:
A cena encontrada no local provocou forte reação de protetores independentes e representantes de organizações da causa animal. A presidente da Organização de Proteção Animal de Mato Grosso (OPA-MT), Michelle Scopel, classificou o cenário como “chocante” e afirmou nunca ter presenciado uma situação semelhante.
“Foi uma cena horrível. Acho que a rua é melhor do que o local onde esses animais estavam. Eu fiquei perplexa. Na televisão e na mídia está tudo muito bonito, mas o que a gente presenciou hoje não é nada disso”, afirmou em entrevista ao Portal Primeira Página.
Michelle também criticou as condições de acomodação dos animais e a falta de estrutura da prefeitura para receber cães com doenças infectocontagiosas.
“Esses animais não poderiam estar aqui. Tinham que estar internados em uma clínica. A cinomose é um vírus que pode contaminar todos os outros animais. Manter esses animais aqui é um verdadeiro maus-tratos. Tinha animal empilhado, um em cima do outro, morto. Eu fiquei muito chocada”, declarou a presidente.
Prefeitura admite falta de estrutura
A secretária adjunta de Bem-Estar Animal, Milena Cavalieri, confirmou que o barracão não pertence à pasta e reconheceu que o município não possui um espaço próprio para receber animais que necessitam de isolamento.
Segundo ela, a utilização do local ocorreu de forma emergencial após a prefeitura receber, na sexta-feira (24), 13 filhotes diagnosticados com cinomose.
Milena afirmou que a intenção sempre foi encaminhar os animais para clínicas veterinárias credenciadas, mas que não havia vagas suficientes durante o fim de semana.
“O correto seria clínica. Foi o que estávamos tentando. Na sexta conseguimos duas vagas, mas no sábado e no domingo a clínica credenciada não tinha disponibilidade. Hoje conseguimos novas vagas e os animais seriam transferidos”, explicou.

A secretária também confirmou que o barracão pertence ao Centro de Controle de Zoonoses e reconheceu que os filhotes “não poderiam permanecer” naquele espaço por mais tempo.
Sobre a falta de energia e ventilação denunciada por protetores, Milena afirmou que os animais receberam alimentação, água e acompanhamento durante o período em que permaneceram no local e disse que as circunstâncias deverão ser esclarecidas pelas autoridades.
Prefeito fala em possível boicote
O prefeito Abilio Brunini também compareceu ao local e afirmou que o abrigo improvisado foi escolhido por ser o único espaço disponível para manter os cães separados dos demais animais enquanto aguardavam atendimento veterinário.
Segundo ele, a prefeitura trabalha com a hipótese de que tenha ocorrido um boicote durante o fim de semana, com o desligamento proposital da energia elétrica do barracão.
“As denúncias que chegaram para a gente apontam um possível boicote. Quem vai dizer se isso aconteceu ou não é a polícia. Já solicitamos as imagens das câmeras de segurança para identificar quem entrou e saiu do local durante o fim de semana”, afirmou.
Investigação
Apesar da hipótese levantada pela administração municipal, ainda não há confirmação de que tenha ocorrido qualquer sabotagem no local.
A Polícia Civil e a Politec realizaram perícia no barracão e deverão investigar tanto as circunstâncias das mortes quanto as condições em que os animais permaneceram durante o fim de semana. A retirada do filhote morto registrada em vídeo antes da conclusão dos trabalhos periciais também deverá integrar a apuração do caso.
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