A servidora da Defensoria Pública de Mato Grosso (DPMT) que relatou ter sido vítima de suposto assédio sexual por parte do defensor público afastado, Rogério Borges Freitas, falou sobre os episódios de humilhação que sofreu e conta que, após a denúncia, outras vítimas entraram em contato com ela.
Em entrevista à TV Centro América, exibida nesta quarta-feira (27), a vítima contou que, depois que a situação veio à tona, outras servidoras e até ex-servidoras do órgão enviaram mensagens de apoio e afirmaram ter passado por situações parecidas.
“Eu tinha evitado [denunciar] para não ser taxada, porque para a gente que denuncia é muito complicado. Eu espero que ele pague e não faça mais isso com ninguém, porque ninguém merece sair de casa pra trabalhar e ser exposta a essas humilhações”, relatou.
Em algumas das mensagens obtidas pela reportagem, mulheres relatam medo e que estavam “destruídas”. Uma delas cita crises de ansiedade e que gostaria de enterrar o “passado, mas ainda dói muito”.
A denúncia feita por ela foi registrada há cerca de um mês na Polícia Civil, em boletim de ocorrência do dia 22 de abril deste ano. No documento, a mulher narra importunação sexual, constrangimentos públicos e até mudança de endereço após os fatos.
O primeiro episódio ocorreu em 2017, quando aceitou uma carona para despachar processos físicos para a coordenadora do setor em que ela trabalhava.
“Dentro do veículo dele, porque ele me ofereceu uma carona para a sede. Ali no estacionamento ele tentou me agarrar e aí eu empurrei, me assustei! Falei pra ele: o que é isso? Ele falou: não só ia te ajudar a colocar o cinto” eu respondi, eu consigo, eu sei colocar o cinto”, relembra.

Ela conta que relatou a situação para uma gestora. No entanto, mesmo assim, dois anos depois, foi designada para trabalhar com o defensor. Desde então, passou a sofrer assédios morais na direção geral.
“Um belo dia ele chegou, colocou uns processos na mesa e disse que, a partir daquele dia, eu iria fazer cálculos de sentença. Eu falei a ele que não era contadora, que não tinha capacidade técnica pra isso. Então ele alterou a voz. Passou uma semana e ele me mudou de localidade, para atuar no Pomeri. Eu chorava pra ir, chorava pra voltar. Era um local muito pesado”, narra.

O último episódio ocorreu este ano, a mulher foi convocada para uma reunião. Ao chegar no local, o defensor teria lido a Bíblia e dirigido críticas à vítima, dizendo que ela estava “possuída por um espírito faccioso, em tom de rebeldia e teria língua grande”.
Os comentários teriam sido feitos na presença de colegas, que ficaram constrangidos. Ela finaliza concluindo que, após este episódio, não teve mais contato com ele.
A vítima pediu medidas protetivas e afirma ter sofrido danos psicológicos. Segundo ela, mudou de endereço e transferiu os filhos de escola por medo. Ela reafirma que chegou a denunciar o caso para várias chefias e não teve respostas.
Outro lado
O defensor público Rogério Borges Freitas foi afastado de forma cautelar do cargo de primeiro subdefensor público-geral, pelo prazo de 60 dias, a partir de 13 de maio de 2026.
A determinação partiu da defensora pública-geral de Mato Grosso (DPMT), Maria Luziane Ribeiro Castro, em portaria publicada no dia 14 deste mês no Diário Oficial do Estado (Iomat).
O Primeira Página busca o contato do defensor Rogério Borges Freitas ou de seus advogados para um posicionamento ou manifestação sobre o caso. Espaço segue aberto.
Já a Defensoria Pública de Mato Grosso (DPMT) informou que determinou o afastamento cautelar do defensor para investigar o caso. Foi informado ainda que a Defensoria Pública trata eventuais denúncias “nas esferas adequadas”, garantindo acolhimento e respeito para cada caso.
Confira a nota na íntegra.
A Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso recebeu denúncia formal envolvendo um membro da Administração Superior da instituição e adotou as medidas administrativas cabíveis. Neste sentido, e com o objetivo de garantir a lisura do processo, determinou, de forma cautelar, o afastamento do membro.
Desde 2023, a DPEMT instituiu a Comissão de Prevenção, Tratamento e Enfrentamento do Assédio Moral e do Assédio Sexual (CPTEA), por meio da Resolução nº 16/2023/DPG. A Comissão atua na prevenção e no enfrentamento ao assédio e à discriminação, assegurando escuta qualificada, acolhimento humanizado e orientação sobre os procedimentos adequados às pessoas que se percebam vítimas ou testemunhas de situações ocorridas no âmbito institucional.
Entre as possíveis ações, cabe à Comissão atuar no recebimento de denúncias, no apoio integral às vítimas, inclusive na orientação sobre necessidade de apoio específico (psicológico, médico e/ou jurídico) e no encaminhamento do caso, quando couber, à Corregedoria-Geral ou outras instâncias competentes para as providências necessárias, desde que autorizado pela vítima, ou independentemente de autorização em se tratando de denúncias anônimas.
Em atenção à proteção da imagem, à condição de vulnerabilidade da vítima e à prevenção da revitimização, a Defensoria Pública trata eventuais denúncias nas esferas adequadas, garantindo acolhimento responsável e respeito às medidas consideradas mais adequadas para cada caso.
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