A poucos dias do segundo turno presidencial, uma pergunta precisa ser feita: até que ponto podemos confiar nas pesquisas eleitorais que, repetidamente, deixam de captar a força de uma parcela significativa do eleitorado brasileiro?
O primeiro turno de 2026 trouxe um exemplo eloquente. Flávio Bolsonaro terminou a votação com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Entretanto, levantamentos divulgados na reta final colocavam o candidato do PL atrás do petista. Segundo levantamento publicado pelo Congresso em Foco, as nove pesquisas nacionais comparáveis analisadas subestimaram a votação de Flávio, em média, em 3,08 pontos percentuais.
Não estamos falando de uma diferença irrelevante. A distância entre uma pesquisa e o resultado das urnas pode alterar a percepção pública sobre a disputa, influenciar o debate e criar uma impressão equivocada sobre a força dos candidatos.
O problema ganha outra dimensão quando observamos eleições anteriores. Em 2014, as pesquisas finais de institutos importantes superestimaram a vantagem de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves. Em 2022, Datafolha e Ipec apontavam uma diferença de 14 pontos entre Lula e Jair Bolsonaro, enquanto a distância efetiva no primeiro turno foi de pouco mais de cinco pontos.
É legítimo perguntar por que essas discrepâncias acontecem. Dificuldades na composição das amostras, diferenças na disposição dos eleitores para responder e limitações dos modelos estatísticos podem explicar parte dos desvios. Mas essas hipóteses precisam ser examinadas com transparência, sobretudo quando os erros parecem se concentrar na votação de determinados segmentos do eleitorado.
Não é possível concluir, apenas com esses números, que os institutos manipulam resultados deliberadamente ou agem para favorecer um partido. É possível, porém, exigir explicações. Quando levantamentos sucessivos subestimam o mesmo candidato, a obrigação de investigar as causas não pode ser descartada como mera implicância política.
O eleitor também precisa compreender o que uma pesquisa representa. Ela é uma fotografia de uma amostra de pessoas entrevistadas em determinado período, não uma contagem antecipada de votos. A margem de erro tampouco explica automaticamente todas as diferenças entre estimativas e resultados. Metodologia, datas de coleta, ponderação e composição da amostra merecem atenção.
Na reta final desta eleição, as pesquisas voltaram a apresentar resultados distintos. Levantamentos divulgados em 23 de outubro, por exemplo, mostraram Flávio numericamente à frente em algumas medições, enquanto outras apontaram empate entre os candidatos dentro da margem de erro.
Diante disso, não cabe transformar qualquer pesquisa em sentença definitiva. A divulgação de números exige responsabilidade dos institutos e discernimento dos veículos de comunicação. Manchetes que apresentam uma vantagem estreita como vitória garantida prestam um desserviço ao debate democrático.
O Brasil precisa discutir propostas, resultados de governo, segurança pública, economia, educação e responsabilidade com o dinheiro público. A eleição não deveria ser reduzida a uma corrida de números divulgados diariamente, muito menos a uma disputa para saber qual instituto acertará a manchete.
As pesquisas têm utilidade quando ajudam a compreender o eleitorado. Perdem credibilidade quando seus erros não são devidamente explicados e quando a discussão sobre metodologia é substituída por disputas políticas.
No domingo, 25 de outubro, os votos serão contados, e não estimados. Será o resultado oficial que definirá a escolha dos brasileiros.
Até lá, uma lição já está dada: pesquisa eleitoral não é voto, instituto não é urna e vantagem estatística não substitui a vontade do eleitor.
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*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.