A Polícia Civil de Campo Grande investiga uma cirurgiã-dentista por exercício ilegal da profissão, induzir consumidor a erro e lesão corporal grave, após oferecer e realizar procedimentos estéticos em sua clínica. A profissional Iolanda Lídia Negrão foi indiciada pela Decon (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Contra as Relações de Consumo) em dois inquéritos; mas responde a pelo menos 12 processos cíveis por lesão.
A informação foi confirmada pela Polícia Civil.
Detalhes dos dois inquéritos pelo qual a dentista responde não foram revelados, mas o primeiro é por exercício ilegal da profissão e o segundo pelos outros dois crimes, induzir consumidor a erro e lesão corporal grave.
Em consulta ao TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) foram encontrados vários processos contra Iolanda Negrão. Três deles são de 2023:
- O primeiro foi registrado em julho de 2023. A vítima, de 51 anos, procurou a polícia depois de fazer um procedimento cirúrgico estético de lifting facial e ficar com seroma (acumulo de líquido) e cicatrizes no rosto. Segundo ela, mesmo depois de várias tentativas, teve o atendimento negado pela profissional.
- Em novembro de 2023 uma mulher de 42 anos procurou a polícia e relatou que fez um “contrato verbal” com Iolanda para fazer uma rinoplastia definitiva no nariz e uma lipo de papada; o resultado, no entanto, não ficou como esperado. A paciente ficou com uma “cicatriz enorme” devido a lipo e ainda teve uma inflamação no nariz, depois do procedimento. Ela também tentou contato e não foi mais atendida.
- O terceiro caso gerou um pedido de indenização contra a profissional. Segundo o processo, em maio de 2021 a vítima procurou Iolanda para uma “rinomodelação definitiva” e pagou R$ 8 mil pelo procedimento. Tempo depois, no entanto, percebeu o aparecimento de uma ponta no local da cirurgia. Ela voltou a procurar a profissional e descobriu que, na verdade, foi submetida a uma rinoplastia com colocação de prótese. Ela foi novamente atendida e submetida a um novo procedimento, mas a “ponta” voltou a aparecer e a causar dor. Por se sentir enganada, recorreu a justiça. Na ação, a vítima pede R$ 10 mil por danos morais, R$ 10 mil por danos estéticos e R$ 8,8 mil por danos materiais. O caso ainda está na fase de audiências.
Outros processos contra a dentista tramitam na justiça de Mato Grosso do Sul.
Depois da repercussão dos casos, Iolanda Negrão usou as redes sociais para se manifestar. Em vídeos no Instagram, rede social em que soma mais de 160 mil seguidores, ela citou o atendimento as paciências para desmentir as acusações.
No caso de 2021 alegou que a mulher não seguiu os procedimentos de pós-operatório indicados por ela e que a “reclamação” veio anos depois, por ela não estar satisfeita com o resultado.
Em outro vídeo, a profissional afirmou que é “capacitada, uma mulher forte e uma pessoal decente”, que tem como provar sua inocência. Também definiu as acusações como “ataques” e “mentiras”.
Assista parte do vídeo:
A reportagem ainda procurou a defesa de Iolanda Negrão, o advogado Érico Servano, é aguarda resposta.
Pode ou não pode?
Segundo a resolução CFO 230/2020 do CFO (Conselho Federal de Odontologia) são procedimentos cirúrgicos vedados ao cirurgião-dentista:
- Alectomia,
- Blefaroplastia,
- Cirurgia de castanhares ou lifting de sobrancelhas,
- Otoplastia,
- Rinoplastia,
- Ritidoplastia ou Face Lifting
No dia 13 de dezembro, data que os primeiros casos vieram à tona, o Conselho Regional de Odontologia de Mato Grosso do Sul emitiu uma nota e reforçou que “procedimentos cirúrgicos invasivos fora do escopo da odontologia são expressamente proibidos aos cirurgiões-dentistas”.
A nota também reforçou que os profissionais são os únicos habilitados a especialidade em harmonização orofacial, procedimentos estéticos e terapêuticos “minimamente invasivos na face, como aplicação de toxina botulínica, preenchimentos faciais, bioestimuladores de colágeno e fios de sustentação”.