Wesley Moreno/Power Mix
Nova Mutum/MT
A sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o maior e mais influente congresso de oncologia clínica do planeta, não costuma ser lugar de emoção fácil. Os médicos e pesquisadores que lotam o auditório são rigorosamente treinados para focar no ceticismo metodológico e na frieza dos dados. No entanto, na última segunda-feira (1º de junho de 2026), as regras de decoro científico deram lugar a lágrimas e a um ruidoso aplauso de pé. A comoção coletiva foi motivada pela apresentação dos resultados finais de Fase 3 do estudo RASolute 302, focado no medicamento daraxonrasib.
Desenvolvido pela biofarmacêutica americana Revolution Medicines, o remédio, um comprimido de uso diário, conseguiu quase dobrar o tempo de vida de pacientes acometidos por câncer de pâncreas metastático que já não respondiam mais às sessões de quimioterapia convencionais.
O ensaio clínico randomizado foi desenhado sob o padrão mais severo da medicina moderna: dividiu por sorteio 500 pacientes em escala global. Enquanto metade recebeu o comprimido, a outra parte seguiu os protocolos padrão de quimioterapia.
A revelação dos dados finais confirmou o salto de eficácia do tratamento:
• Sobrevida Mediana: No grupo de pacientes com a mutação RAS G12 (a variante mais comum da doença), a sobrevida mediana atingiu 13,2 meses com o uso do comprimido, em comparação a apenas 6,6 meses sob tratamento quimioterápico.
• Redução do Risco: O risco geral de morte despencou 60% entre os pacientes que utilizaram a nova terapia.
• Progressão da Doença: O tempo livre de avanço do tumor dobrou, saltando de 3,5 meses para 7,3 meses.
• Encolhimento do Tumor: Mais de 31% dos voluntários que receberam o daraxonrasib apresentaram uma redução mensurável e objetiva do tamanho do tumor, contra 11,2% do grupo controle.
Outro fator crucial celebrado pela comunidade oncológica foi o perfil de segurança da substância. Apenas 1,2% dos pacientes submetidos ao daraxonrasib precisaram interromper o cronograma devido a efeitos colaterais. Na ala da quimioterapia tradicional, o índice de rejeição por toxicidade severa bateu a casa dos 11,2%. A conclusão dos cientistas, chancelada em publicação simultânea no respeitado Journal of Clinical Oncology, crava que o medicamento deve ser adotado imediatamente como o novo protocolo padrão global de segunda linha para a doença.
“Raramente celebramos um medicamento com esse perfil: baixa toxicidade, impacto real em sobrevida e um mecanismo inédito para essa doença”, explicou ao g1 o oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, que acompanhou a plenária em Chicago. “O resultado confirma que estamos avançando numa direção que por muito tempo pareceu fechada, a de oferecer sobrevida real a pacientes para os quais, até agora, pouco havia a fazer.”
A agressividade do câncer de pâncreas reside no fato de ser silencioso em fases iniciais. Cerca de 80% dos diagnósticos ocorrem quando a doença já se espalhou (metástase), eliminando chances de cirurgia. Anualmente, o tumor faz cerca de 50 mil vítimas fatais nos Estados Unidos e mais de 12 mil no Brasil, ostentando uma das menores taxas de sobrevida em cinco anos do mundo (aproximadamente 3%).
A barreira para a cura sempre esteve atrelada à proteína RAS, um componente celular que, ao sofrer mutação, fica permanentemente travado na posição “ligado”, ordenando a multiplicação desenfreada das células cancerígenas. Essa anomalia ocorre em mais de 90% dos tumores pancreáticos. Por décadas, a molécula foi rotulada pela medicina como undruggable (intratável), porque sua superfície é polida e lisa, impedindo a fixação de drogas químicas. O daraxonrasib superou esse impasse ao conseguir se ancorar em múltiplas variantes dessa mutação ao mesmo tempo.
Após a consolidação dos dados de Fase 3, a Revolution Medicines anunciou que submeterá formalmente o dossiê para aprovação da agência reguladora dos EUA, a FDA. Como o daraxonrasib possui o status de Breakthrough Therapy (Terapia Inovadora), além de designação de medicamento órfão, o processo de revisão será acelerado ao máximo. Atualmente, programas de acesso compassional já estão liberados em solo americano para casos críticos.
Para o Brasil, contudo, a realidade de acesso ainda é uma barreira complexa e distante. O insumo necessita passar pelo crivo de segurança da Anvisa e, posteriormente, obter diretrizes técnicas da ANS para que os planos de saúde privados realizem a cobertura obrigatória.
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), o obstáculo principal é o abismo financeiro de custeio. Atualmente, o repasse público para tratar um paciente com essa neoplasia gira em torno de R$ 1.986. Em contrapartida, medicamentos oncológicos de última geração chegam ao mercado norte-americano custando uma média de dez mil dólares por mês (cerca de R$ 55 mil), tornando imprevisível qualquer cronograma de incorporação pública de curto prazo no Brasil.
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